Projeção de lucro de empresa é um exercício curioso. Você modela margem, receita, despesa, juros sobre dívida, e chega a um número. O número vira "consenso". E quando o número sai errado, o consenso simplesmente... atualiza. Como se a estimativa anterior nunca tivesse existido.

Vou contar um caso. Não vou nomear a empresa — não é o ponto, e o padrão se repete com várias. O ponto é o ritual de revisar depois do fato.

Duas barras: estimativa de R$ 9,1 bilhões versus lucro realizado de R$ 6,4 bilhões
O contorno tracejado é o que se prometeu. A barra cheia é o que veio.

O cenário antes do resultado

Estamos no terceiro trimestre de 2022. Uma das maiores redes de varejo do país, com histórico de crescimento robusto nos trimestres anteriores, ia divulgar resultado. O consenso entre os analistas que cobriam o papel apontava lucro líquido na casa de R$ 9,1 bilhões para o trimestre.

A justificativa era razoável. A empresa vinha ganhando share, o ticket médio tinha subido com a inflação, e o efeito de opening de novas lojas ia aparecer no número. Havia, claro, ressalvas sobre margem e custo financeiro, mas no geral a história era positiva.

A previsão Lucro líquido do 3T22, segundo o consenso: aproximadamente R$ 9,1 bilhões.

O que veio

A empresa divulgou R$ 6,4 bilhões. Um recuo de aproximadamente 30% em relação à estimativa. No mesmo trimestre em que o consenso esperava aceleração, veio desaceleração.

R$ 6,4 bi
lucro líquido realizado
R$ 9,1 bi
consenso pré-divulgação
−30%
diferença

O interessante não foi o tamanho do erro — 30% é grande, mas não absurdo pra um trimestre atípico. Foi a reação do consenso.

O ritual da revisão depois do fato

No dia seguinte à divulgação, as mesas de análise fizeram o que costumam fazer: rebaixaram a estimativa para os trimestres seguintes, cortaram o preço-alvo, e publicaram notas explicando "o que aconteceu". A linguagem era de surpresa com o resultado, mas a nova projeção foi ajustada de forma tão fluida que dava a impressão de que sempre esteve ali.

A nova projeção foi escrita como se a antiga nunca tivesse existido. E foi aí que me incomodei.

É um padrão que vi dezenas de vezes. O analista acerta: ótimo, citam o acerto. O analista erra: a estimativa é silenciosamente substituída, e a próxima rodada começa do novo número como se fosse o ponto de partida original. Não há um "errei por isso". Há um "o cenário mudou".

Por que isso é um problema

Em tese, você diria: ora, o mercado se corrige rápido, é assim que funciona. Em prática, o problema é metodológico.

A estimativa de R$ 9,1 bilhões não era um chute. Era o output de um modelo — com pressupostos sobre margem, custo financeiro, despesa operacional. Quando o número sai errado, o exercício valioso não é trocar o número. É voltar ao modelo e entender qual pressuposto falhou. Foi a margem? O custo de dívida? O efeito da inflação sobre o consumidor de baixa renda?

Quase nenhuma das notas que li depois fez isso. A maioria ajustou o output e seguiu. O modelo, a metodologia, permaneceram intactos. E a próxima projeção, feita com o mesmo método, carregou os mesmos pontos cegos.

O caso é sintomático, não isolado

Escolhi essa empresa porque o caso é nítido, mas poderia ser outra. Varejo, bancos, commodities — em todo setor onde existe consenso de lucro, o ritual se repete. E cada vez que se repete sem autocrítica, a qualidade média da projeção não melhora.

Há, é claro, exceções. Alguns analistas e instituições mantêm registros públicos dos próprios erros, atualizam metodologia, explicam. É raro, e por isso mesmo vale reconhecer. Mas é minoria.

Para fechar

Não tenho ilusão de que um blog vai mudar a forma como o mercado lida com erro de projeção. O sistema é desenhado pra seguir em frente. Mas tenho a convicção de que anotar é melhor do que esquecer. E, talvez, de que um leitor que voltar a este texto daqui a alguns trimestres vai poder comparar com o que de fato veio — inclusive com as minhas próprias leituras aqui.

Se você acompanha um papel e quer que eu revise um caso de estimativa vs. realizado, me escreve. Não prometo nomear empresa, mas prometo honestidade.

Tem um caso de estimativa que errou? [email protected]
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