Tem uma coisa que me intriga em cobertura econômica: a forma como o erro de projeção é absorvido sem deixar rastro. Sai um número, ele é bem diferente do projetado, e em vez de alguém voltar e dizer "a gente errou, e foi por isso", a coisa inteira é jogada pra baixo do tapete como se a nova realidade sempre tivesse sido óbvia.

Resolvi testar isso com um caso específico. Peguei o IPCA de 2022.

Termômetro mostrando inflação de 5,79% bem acima da meta de 3,75%
Em verde, a meta perseguida. Em vermelho, o que veio.

O que se dizia no começo de 2022

Vamos aos fatos. Em janeiro de 2022, o boletim Focus — aquela pesquisa semanal que o Banco Central faz com umas 140 instituições — mostrava uma mediana de expectativa para o IPCA daquele ano em torno de 4,7%. Algumas casas mais otimistas falavam em algo bem perto da meta, que era 3,5% naquele exercício (com intervalo de tolerância até 5%).

A narrativa era razoável. Tinha havido um choque de preços forte em 2021, ligado a commodities, fretes, pandemia. A aposta era de que o efeito sazonal ia arrefecer, que a própria inflação alta de um ano antes sairia do cálculo de 12 meses, e que a Selic em alta faria o resto. Era uma história limpa, com começo, meio e fim. Eu mesma, na época, achava plausível.

A previsão IPCA 2022, segundo a mediana do Focus em janeiro daquele ano: aproximadamente 4,7%. Casos mais otimistas: perto de 3,8%.

O que de fato aconteceu

O IPCA de 2022 fechou em 5,79%. Acima do teto da meta de 5%, pelo segundo ano seguido. E olha que esse número, no papel, é até mais bonito do que a jornada pra chegar nele: durante o ano houve meses com alta de quase 1%, a inflação de serviços endureceu de um jeito que quase ninguém tinha modelado, e o choque de energia se alongou mais do que o esperado.

5,79%
IPCA realizado em 2022
4,7%
mediana projetada (jan/22)
~1,1 p.p.
tamanho do erro

Um ponto percentual e meio de erro, num indicador que orienta decisão de juros, salário, contrato. Não é trivial.

Onde a leitura falhou

Voltei aos relatórios e identifiquei três pontos onde o consenso se afastou da realidade. Não estou apontando culpa — estou tentando entender.

Primeiro, a persistência da inflação de serviços. A maioria dos cenários tratava a alta de serviços como algo que cederia assim que o efeito da reabertura passasse. Não passou tão rápido. E o componente de serviços, no IPCA, tem peso grande e é grudento — uma vez que sobe, demora pra ceder.

Segundo, o choque de energia e combustíveis. A guerra na Ucrânia começou em fevereiro de 2022. Os relatórios de janeiro não tinham isso, evidentemente. Mas o que surpreendeu não foi o evento em si — foi a duração. Gasolina, energia elétrica (com a bandeira tarifária escassez hídrica ainda em parte do ano) ficaram pressionando muito mais tempo do que o esperado.

O erro não foi o evento imprevisível. Foi subestimar por quanto tempo ele ia doer.

Terceiro, a leitura do câmbio. O real se desvalorizou ao longo do ano, repassando preços. Os modelos, em geral, tratam o câmbio como dado de curto prazo. Quando ele fica depreciado por tempo demais, o repasse acumula.

A parte que mais me incomoda

Aqui é onde eu quero ser franca. Errou? Errou. É normal? É. O problema é o que veio depois.

Fui procurar, nos meses seguintes, análises que voltassem ao relatório original e dissessem "olha, a gente projetou X, veio Y, e a razão foi Z". Encontrei pouquíssimo. O que encontrei, em maioria, foram relatórios atualizados com a trajetória revista — como se a nova curva sempre tivesse estado ali. O boletim Focus, claro, atualiza a mediana toda semana, então a "memória" do consenso é fluida por design.

É esse vácuo que me incomoda. Sem registro do erro, não tem correção de método. A próxima projeção é feita sobre o esquecimento da anterior.

O que isso muda? Honestamente, pouco — e esse é o ponto

Eu não tenho solução. Projeção é difícil, choque existe, e exigir que cada analista publique um mea-culpa detalhado é irreal (e meio cruel). O que eu acho que dá pra fazer é mais modesto: manter um registro. Anotar. Voltar. Comparar. Dizer em voz alta o que se disse antes.

É, no fundo, o que este blog tenta ser. Um caderninho de memória, aberto, sobre um mercado que esquece rápido demais.

Se você tiver um caso de projeção que errou e que ninguém revisitou, me manda. Adoraria escrever sobre.

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