Tem uma coisa que me intriga em cobertura econômica: a forma como o erro de projeção é absorvido sem deixar rastro. Sai um número, ele é bem diferente do projetado, e em vez de alguém voltar e dizer "a gente errou, e foi por isso", a coisa inteira é jogada pra baixo do tapete como se a nova realidade sempre tivesse sido óbvia.
Resolvi testar isso com um caso específico. Peguei o IPCA de 2022.
O que se dizia no começo de 2022
Vamos aos fatos. Em janeiro de 2022, o boletim Focus — aquela pesquisa semanal que o Banco Central faz com umas 140 instituições — mostrava uma mediana de expectativa para o IPCA daquele ano em torno de 4,7%. Algumas casas mais otimistas falavam em algo bem perto da meta, que era 3,5% naquele exercício (com intervalo de tolerância até 5%).
A narrativa era razoável. Tinha havido um choque de preços forte em 2021, ligado a commodities, fretes, pandemia. A aposta era de que o efeito sazonal ia arrefecer, que a própria inflação alta de um ano antes sairia do cálculo de 12 meses, e que a Selic em alta faria o resto. Era uma história limpa, com começo, meio e fim. Eu mesma, na época, achava plausível.
O que de fato aconteceu
O IPCA de 2022 fechou em 5,79%. Acima do teto da meta de 5%, pelo segundo ano seguido. E olha que esse número, no papel, é até mais bonito do que a jornada pra chegar nele: durante o ano houve meses com alta de quase 1%, a inflação de serviços endureceu de um jeito que quase ninguém tinha modelado, e o choque de energia se alongou mais do que o esperado.
Um ponto percentual e meio de erro, num indicador que orienta decisão de juros, salário, contrato. Não é trivial.
Onde a leitura falhou
Voltei aos relatórios e identifiquei três pontos onde o consenso se afastou da realidade. Não estou apontando culpa — estou tentando entender.
Primeiro, a persistência da inflação de serviços. A maioria dos cenários tratava a alta de serviços como algo que cederia assim que o efeito da reabertura passasse. Não passou tão rápido. E o componente de serviços, no IPCA, tem peso grande e é grudento — uma vez que sobe, demora pra ceder.
Segundo, o choque de energia e combustíveis. A guerra na Ucrânia começou em fevereiro de 2022. Os relatórios de janeiro não tinham isso, evidentemente. Mas o que surpreendeu não foi o evento em si — foi a duração. Gasolina, energia elétrica (com a bandeira tarifária escassez hídrica ainda em parte do ano) ficaram pressionando muito mais tempo do que o esperado.
O erro não foi o evento imprevisível. Foi subestimar por quanto tempo ele ia doer.
Terceiro, a leitura do câmbio. O real se desvalorizou ao longo do ano, repassando preços. Os modelos, em geral, tratam o câmbio como dado de curto prazo. Quando ele fica depreciado por tempo demais, o repasse acumula.
A parte que mais me incomoda
Aqui é onde eu quero ser franca. Errou? Errou. É normal? É. O problema é o que veio depois.
Fui procurar, nos meses seguintes, análises que voltassem ao relatório original e dissessem "olha, a gente projetou X, veio Y, e a razão foi Z". Encontrei pouquíssimo. O que encontrei, em maioria, foram relatórios atualizados com a trajetória revista — como se a nova curva sempre tivesse estado ali. O boletim Focus, claro, atualiza a mediana toda semana, então a "memória" do consenso é fluida por design.
É esse vácuo que me incomoda. Sem registro do erro, não tem correção de método. A próxima projeção é feita sobre o esquecimento da anterior.
O que isso muda? Honestamente, pouco — e esse é o ponto
Eu não tenho solução. Projeção é difícil, choque existe, e exigir que cada analista publique um mea-culpa detalhado é irreal (e meio cruel). O que eu acho que dá pra fazer é mais modesto: manter um registro. Anotar. Voltar. Comparar. Dizer em voz alta o que se disse antes.
É, no fundo, o que este blog tenta ser. Um caderninho de memória, aberto, sobre um mercado que esquece rápido demais.
Se você tiver um caso de projeção que errou e que ninguém revisitou, me manda. Adoraria escrever sobre.