Sobre

A preguiça de lembrar é o combustível deste blog.

Eu trabalho com números de mercado há uns dez anos. Em algum momento percebi uma coisa que me incomodava: relatórios de projeção são fáceis de publicar e dificílimos de revisar em público.

Meu nome é Marina Ferraz. Passei boa parte da minha carreira trabalhando com dados macroeconômicos, lendo boletins, montando tabelas de consenso, comparando o que as instituições projetavam com o que de fato acontecia. E em algum momento, comcei a notar um padrão incômodo.

Projeção sai todo dia. Revisão, quase nunca — pelo menos não da forma honesta. Quando o número sai errado, o relatório original some do site, a planilha do Focus atualiza sozinha, e a próxima rodada de estimativas já começa como se nada tivesse acontecido. A memória do mercado é curta demais, e isso não é um detalhe. É o sistema funcionando como desenhado.

De onde veio a ideia

Certa vez, numa quinta-feira à noite, eu estava organizando uma pasta com projeções antigas de IPCA. Tinha ali um consenso de início de 2022 que apontava inflação fechando o ano perto da meta — algo como 3,8%. O número que veio, meses depois, foi 5,79%. Um erro grande, daqueles que mudam decisão de política monetária.

Fui procurar quem tinha voltado pra explicar o erro. Quase ninguém. Os relatórios tinham sido discretamente substituídos por versões "atualizadas", com a trajetória revista pra parecer que sempre esteve mais alta. Aquilo me incomodou mais do que o erro em si. Erro é normal. Esconder o erro é uma escolha.

Este blog não existe pra expor ninguém. Existe pra manter um registro que o mercado, por natureza, não tem interesse em manter.

O que eu tento fazer aqui

A ideia é simples, quase tediosa. Eu pego uma projeção, uma estimativa de consenso, um chamado de analista — e volto meses ou anos depois. Comparo com o realizado. Escrevo sobre o que deu certo, o que errou, e principalmente sobre o que foi esquecido.

Não é um exercício de vingança. Analista erra, instituição erra, e todo mundo que já projetou alguma coisa na vida — eu inclusa — sabe disso. O ponto é outro: sem registro, não tem aprendizado. E sem aprendizado, a próxima rodada de projeções repete os mesmos vícios da anterior, só que com data nova.

O que este blog não é

Importante deixar claro, porque a confusão é fácil. À Margem não é:

Sobre o método (e suas falhas)

Eu trabalho com fontes públicas: relatórios de bancos, boletim Focus do Banco Central, comunicados de empresas, dados do IBGE. Quando cito uma projeção, deixo claro de onde veio e de quando é. Quando o número realizada sai, comparo lado a lado.

O método tem limites. Às vezes eu não encontro o relatório original (sumiu, como sempre). Às vezes a categoria mudou de definição. Às vezes eu mesma interpreto mal. Quando isso acontece, eu atualizo a nota, deixando visível o que mudou e por quê. É o mínimo.

Se você quiser sugerir uma previsão pra revisar, ou apontar um erro meu, me escreve: [email protected]. Leio tudo, demoro um pouco, mas respondo.

Ver as notas de revisão →