Juros é o tipo de tema onde o consenso fica especialmente confiante. Tem modelo, tem regra informal, tem o histórico de comportamento do Copom. E mesmo assim — ou talvez por causa disso — o consenso erra a trajetória com uma frequência impressionante.
Quero falar de uma janela específica: a leitura que se fazia da Selic em meados de 2022, e o que veio depois.
A leitura naquela primavera
Em meados de 2022, a Selic estava em 12,75%, depois de um ciclo de aperto que tinha começado lá atrás. A narrativa dominante entre as mesas de análise era de que o ciclo de alta estava perto do fim, ou já tinha terminado, e que o próximo movimento — talvez ainda naquele ano — seria de início de corte.
Fazia sentido no argumento. A inflação cheia tinha mostrado some desaceleração em determinados meses, o cenário internacional começava a dar sinais de que o pico de aperto dos bancos centrais estava próximo, e a atividade econômica não estava exatamente forte. A lógica era: o Copom para, espera, e começa a afrouxar.
O que de fato aconteceu
O Copom não parou onde se esperava. Subiu a Selic para 13,75% em agosto de 2022 — mais um passo do que o consenso antecipava — e manteve a taxa nesse patamar por um tempo considerável. O primeiro corte só veio bem depois, em meados de 2023, e mesmo assim devagar, cauteloso.
O consenso não errou a direção. Errou o nível e, mais importante, errou o timing. E timing, em juros, é praticamente tudo.
Onde a leitura falhou
De novo, três pontos me saltam aos olhos quando volto aos relatórios.
A persistência da inflação de serviços e núcleos. A inflação cheia dá sinais de desaceleração, mas os núcleos — que tiram os componentes mais voláteis — continuam quentes. O Copom, historicamente, dá peso grande aos núcleos. O consenso, não tanto. Esse descompasso explicou boa parte do erro.
O consenso leu a inflação cheia. O Copom leu os núcleos. Cada um olhou pra um número diferente.
A tolerância do Banco Central com uma taxa alta por mais tempo. Havia uma expectativa de que o BC reagiria rápido a qualquer sinal de fraqueza da atividade. O que se viu foi uma postura de paciência: o custo de segurar a taxa por mais tempo era considerado menor do que o custo de cortar cedo demais e ter que voltar atrás.
O viés de ancorar o próximo movimento no último. É um erro clássico de projeção. Depois de um longo ciclo de alta, a tendência é projetar a reversão. Mas ciclos monetários não são simétricos nem mecânicos. A pausa no topo costuma ser mais longa do que se imagina.
Por que isso importa (mesmo sendo óbvio)
Eu sei que parece um exercício de carpir o já carpinado. A Selic foi o que foi, todo mundo se ajustou, a vida seguiu. Mas é exatamente esse o ponto que me move: a vida seguiu, e ninguém anotou o descompasso.
A projeção de juros orienta decisão de crédito, investimento, hedge. Quando o consenso erra o timing, quem decidiu com base nele perde dinheiro — ou oportunidade. E a instituição que projetou, na maioria das vezes, simplesmente roda a próxima rodada de estimativa como se nada tivesse acontecido.
Não estou pedindo perfeição. Estou pedindo memória.
Uma observação sobre mim mesma
Justo pra não ficar só apontando o dedo: eu mesma, na época, achava que o ciclo tinha terminado. Anotei isso numa planilha pessoal. Estava errada. A diferença é que eu guardo a planilha — e estou aqui contando que errei. Se mais gente fizesse o mesmo, talvez a próxima rodada de projeção fosse um pouquinho melhor. Ou pelo menos um pouquinho mais honesta.